Vibe coding para não-programadores
A arte de construir “um sisteminha” para qualquer momento ou processo da sua rotina.
A série Digital em foco faz parte da seção +ConverSaaS com IA, aqui vou compartilhar como usar inteligência artificial no trabalho para quem não é de TI. Dicas práticas, casos reais e zero enrolação.Sexta-feira, 16h. Você abre aquela planilha que atualiza toda semana. Copia os dados do sistema A, cola na aba certa, ajusta as fórmulas que quebraram, confere se os totais batem, exporta pra outro formato, manda por e-mail.
Depois de uma hora e meia, termina e sabe que semana que vem começa tudo de novo.
Esse é apenas um exemplo de um processo mecânico, chato, e que toda vez você pensa “deveria ter um jeito melhor de fazer isso”.
Só que você já se conformou. Afinal, ninguém vai aprovar orçamento pra trocar de sistema, o time de TI nunca tem tempo e a empresa não vai pagar licença de um sistema só pra resolver seu problema específico.
Então o esquema é aceitar e repetir seu processo mecânico de copia e cola…
Mas e se eu te contar que você não precisa sofrer tanto? Que dá pra ter mais autonomia e criar pequenos programas que deixam sua vida mais fácil, sem depender de aprovação, sem esperar o TI, sem saber programar?
Pega teu café e vem comigo. Hoje a gente vai falar sobre como criar suas próprias ferramentas/aplicativos/sistemas usando IA. Se você também se irrita com trabalho repetitivo, esse texto é pra você.
Conversas no Corredor é uma newsletter onde compartilho conselhos diretos e práticos que eu gostaria de ter ouvido durante um café. Meu objetivo é ajudar profissionais que sentem falta de um líder para recorrer quando o assunto é crescer, seja na carreira ou no negócio.
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O especialista que você ainda não convocou
No último texto, falamos sobre parar de usar a IA como Google turbinado e começar a consultá-la como um especialista de verdade.
Se você já colocou em prática, deve ter percebido que dá pra extrair muito mais das conversas quando você convoca o expert certo.
Mas tem um especialista que a maioria das pessoas nem imagina que pode convocar: o desenvolvedor.
Não estou falando de virar programador. Estou falando de assumir o papel de quem define o que precisa ser feito, enquanto a IA cuida da execução. Você se torna o diretor do projeto, aquele que dá a visão e cobra o resultado.
Isso tem até nome: vibe coding.
O termo foi criado por Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI, em fevereiro de 2025. A ideia é simples: você descreve o que quer em linguagem natural (português/inglês) e a IA gera o código funcionando.
O termo ficou tão popular que virou a Palavra do Ano no dicionário Collins.
E isso não é só teoria ou hype de tecnologia. Em uma entrevista recente, o CEO da Replit (uma das maiores plataformas de vibe coding do mundo) disse que estamos vivendo uma "descentralização da inovação".
Segundo ele, antes o Vale do Silício concentrava toda a riqueza porque poucas pessoas sabiam fazer software pois isso exigia diploma caro, anos de estudo e muito talento.
Mas, pela primeira vez, você não precisa mais disso. Ele conta que já vê empreendedores na plataforma criando CRMs específicos para nichos como private equity, algo que antes exigiria uma equipe inteira de desenvolvedores.
A previsão dele é uma explosão de novas ideias vindas de gente comum, de todo lugar do mundo.
Mas calma. Antes de você achar que isso é coisa de startup do Vale do Silício, deixa eu te mostrar o que isso significa na prática do dia a dia corporativo.

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A barreira invisível que te separa das suas ideias
Eu aposto que durante aquela tarefa chata e repetitiva você já deve ter tido pelo menos uma dessas ideias:
“Queria um jeito de organizar esses dados sem ficar copiando célula por célula.”
“Seria ótimo ter um formulário que já jogasse as informações no lugar certo.”
“Se existisse uma ferramenta que convertesse esse arquivo automaticamente, eu economizaria horas.”
Quem tem TDAH sabe: tarefa repetitiva é tortura. E no meu caso, não consigo fazer a mesma coisa três vezes sem começar a procurar um atalho.
Foi essa inquietação que me levou ao vibe coding, e em menos de uma semana eu tinha um sistema inteiro funcionando, sem entender nada de código.
O problema nunca foi a ideia mas a execução: você não sabe programar, não tem orçamento pra contratar quem saiba, e o TI tem prioridades maiores do que resolver seu problema específico.
Só que agora essa barreira quase não existe. Você pode descrever o que precisa em linguagem normal e ter algo funcionando em minutos.
Kevin Roose, jornalista do New York Times, chamou isso de “software for one”: ferramentas feitas sob medida para resolver problemas que só você tem.
Ele criou um app que analisa foto da geladeira e sugere o que fazer de lanche pro filho. Em dez minutos, sem saber programar.
Como funciona na prática
O processo é mais simples do que parece. Você descreve o que quer, a IA gera uma primeira versão, você testa e dá feedback, ela ajusta. Funciona mais como uma conversa do que como programação tradicional.
Quando criei a plataforma +ConverSaaS, fiz 100% assim e em menos de uma semana o sistema estava no ar.
O segredo não foi saber código, mas sim saber perguntar direito e não aceitar qualquer resposta.
Tinha dia que eu passava horas copiando e colando trechos de código, revisando cada correção que a IA sugeria (hoje já domino ferramentas muito mais rápidas nesse processo).
Não que eu entendesse tudo, mas fui aprendendo a pensar como programador pensa: quebrar em etapas menores, testar cada pedaço e voltar atrás quando algo quebrava.
E é aí que entra a diferença entre fazer isso direito e fazer de qualquer jeito.
Todo cuidado e atenção são válidos
Antes de pedir qualquer coisa pra IA, uma pergunta simples te salva de muita dor de cabeça: “se isso der errado, o que acontece?”
Se a resposta for “nada grave, é só uma ferramenta pra mim”, pode ir fundo sem medo. Vai experimentando, erra, aprende no caminho.
Porém, se a resposta for “perco dados importantes” ou “isso afeta outras pessoas”, vale parar e pensar melhor. Faz backup, testa num ambiente separado e não confia cegamente nos outputs da IA.
Reforço esse ponto pois em julho de 2025, o fundador de uma das maiores comunidades de SaaS do mundo estava testando vibe coding por 12 dias. No nono dia, a IA deletou o banco de dados inteiro, mesmo depois de instruções explícitas para não mexer em nada.
Pior: quando ele perguntou se dava pra recuperar, a IA disse que não. Ele tentou por conta própria e conseguiu.
O ponto aqui não é te assustar, mas te mostrar que você precisa dirigir e supervisionar o processo, e não ser apenas o passageiro.
Quanto menor o risco, maior a liberdade de experimentar.
Quanto maior o risco, mais você precisa entender o que está acontecendo.
O que você pode criar sem depender de ninguém
Ok, então vamos ver como isso pode se encaixar na sua rotia.
Você não precisa começar com um sistema complexo, aliás, recomendo que não comece por aí.
Tenha o mindset de: vou convidar a IA para a maioria dos meus processos e atividades do dia a dia. Experimente e teste! Esse é o primeiro passo, afinal os exemplos são infinitos e só você conhece o tamanho das pedras que tem no seu caminho.
Tipo, sabe aquele relatório que você monta toda sexta juntando dados de três planilhas? Você pode criar um arquivo HTML simples que faz isso automaticamente.
Algo offline, que vai roda no seu navegador, não precisa instalar nada, não precisa de servidor, não precisa pedir permissão pra ninguém. Esse mini-app vai carregar seu dados e devolver no formato que você precisa.
Ou então, sabe aquele dashboard que usa uma planilha de dados que é atualizada toda semana. Então, dá pra automatizar em 15 minutos todos os gráficos em um layout moderno e intuitivo.
Enfim, a mágica está em perceber que você nem sempre precisa burocratizar soluções pra resolver seu próprio problema. Se é uma ferramenta só pra você, de baixo risco, que economiza tempo toda semana, por que não testar e ver o resultado?
Mão na massa: seu primeiro programa em 10 minutos
Olha, essa seção deveria ser somente para assinantes da newsletter, mas começo de ano, vou dar essa colher de chá e deixar esse post aberto até o final do mês de janeiro!
Então, aproveito para te convidar para fazer parte da comunidade Conversas no Corredor.
Chega de teoria, vou te mostrar como criar seu primeiro “sisteminha” agora, do zero, sem instalar nada. Tudo que você precisa é abrir o Bloco de Notas no seu computador e acesso a alguma IA (ChatGPT, Gemini, Claude).
Neste exemplo vamos fazer um gerenciador de tarefas pessoal. Simples, funcional, que roda direto no seu navegador, offline, sem precisar de internet nem de conta em lugar nenhum.
1. Abra o ChatGPT, Claude ou Gemini e cola esse prompt:
“Atue como um desenvolvedor front-end especialista em criar ferramentas simples e funcionais. Quero que você crie um gerenciador de tarefas pessoal em um único arquivo HTML que eu possa abrir direto no navegador, sem precisar de servidor ou internet.
O gerenciador precisa ter: campo para digitar nova tarefa, botão para adicionar, lista de tarefas com opção de marcar como concluída e excluir, visual limpo e agradável, e os dados devem ficar salvos no navegador para não perder quando fechar a página.
Me entregue o código completo em um único bloco que eu possa copiar e colar no Bloco de Notas.”
2. Copia o código que a IA devolver
Você vai ver um bloco grande de texto com vários símbolos estranhos. Não se preocupa em entender tudo, só seleciona tudo e copia.
3. Abra o Bloco de Notas do Windows
Pode ser qualquer editor de texto simples, o bloco de notas é o mais simples.
Cola o código ali dentro.
4. Salva o arquivo como HTML
Vai em Arquivo → Salvar como. No nome, coloca algo como “minhas-tarefas.html”. Importante: em “Tipo”, seleciona “Todos os arquivos”. Pode salvar na área de trabalho ou na sua pasta mesmo.
5. Dá um duplo clique no arquivo
Encontre onde salvou o arquivo e abra ele. Você vai ver que na janela do seu navegador agora mostra um gerenciador de tarefas.
E pronto, você tem um gerenciador de tarefas funcionando, feito por você, sem precisar saber programar.
Se quiser mudar alguma coisa depois, é só voltar na conversa com a IA e pedir. “Quero que as tarefas tenham data de prazo e fiquem vermelhas quando atrasadas.”
Ela ajusta o código, você copia, cola e salva por cima do arquivo anterior. Esse é o ciclo de melhoria contínua que te permite ir refinando até chegar exatamente no que você precisa.
Vou colocar no final do post alguns prints do gerenciador de tarefas que o GPT e o Gemini fizeram para mim só com esse prompt. Veja como cada IA tem entendimentos diferentes e gera resultados diferentes.
O que isso muda no seu dia a dia
O objetivo desse texto não era te transformar em programador, mas te mostrar um caminho pouco explorado por quem não é da área da TI ou atua com desenvolvimento de softwares.
Esse caminho é você assumir o controle das pequenas automações que só você sabe que precisa., como quele relatório semanal, aquela conversão de arquivo, aquele processo chato que ninguém vai priorizar porque só afeta você.
No último texto, você aprendeu a convocar especialistas para pensar junto com você. Hoje você descobriu que pode ir além e coordenar um time de desenvolvimento inteiro, mesmo que esse time seja você e uma IA.
A barreira técnica que te separava das suas ideias ainda existe, mas ficou bem menor do que era antes e quanto mais você pratica, mais ela encolhe.
Então, já começa! Pega aquela tarefa que te irrita toda semana, descreve o problema pra IA como se estivesse explicando pra um colega e vai testando até chegar num resultado que funcione.
Aposto que em meia hora você pode ter algo rodando que antes parecia impossível de fazer sem saber programar.
A pergunta que fica é: você vai continuar aceitando a rotina repetitiva ou vai começar a resolver por conta própria?
Se esse conteúdo fez sentido, compartilha com aquele colega que vive reclamando que “precisava de um sisteminha” pra resolver o problema dele. E me conta nos comentários: qual tarefa repetitiva você automatizaria primeiro?
Extra
Confira a seguir como ficaram os dois sistemas de gestão de tarefas que criei só copiando aquele promtp:
1.ChatGPT
Como no modo pensamento extendido e colei o prompt, o resultado foi bem interessante para um primeiro comando curto e genérico.
2.Gemini
Achei bem fraco mas ele cumpriu o prompt exatamente, não adicionou nada além do que eu pedi, então tem mais trabalho de refino depois.
E aí, me conta como ficaram os seus!




